
Nos últimos anos a saúde pública do Piauí tem avançado em alguns indicadores e obras, mas vive uma realidade paradoxal: melhorias estruturais e resultados em indicadores convivem com filas, falta de leitos de UTI pediátrica e episodicamente greves que paralisam atendimentos. É esse contraste que merece atenção crítica e ação coordenada do poder público e da sociedade.
Primeiro, os sinais positivos. Em 2025 o governo federal anunciou investimentos do novo PAC Saúde que destinam cerca de R$ 197 milhões ao Piauí para ampliar a capacidade de atendimento do SUS no estado, incluindo aquisição de equipamentos e obras. Esse aporte pode acelerar modernizações e ampliações necessárias na rede.
Há também expansão de infraestrutura regional: por exemplo, o Hospital de Corrente vem sendo ampliado para ganhar UTI, pronto-socorro e central de diagnóstico iniciativas importantes para reduzir deslocamentos longos em casos de alta complexidade no sul do estado.
No campo da atenção primária e da inovação, o Piauí tem investido em saúde digital: programas estaduais reportam que o “Piauí Saúde Digital” consegue resolver sem necessidade de ida ao hospital uma parcela significativa dos atendimentos, o que desafoga unidades e amplia o acesso em áreas remotas quando bem implementado.
Esses avanços ajudam a explicar melhorias em indicadores: o estado registrou queda relevante em mortes maternas e redução da mortalidade infantil ao longo da última década conquistas que mostram impacto de políticas de prevenção, atenção primária e programas materno-infantis.
Mas os problemas estruturais e operacionais seguem presentes. A oferta de leitos de UTI segue desigual: há regiões com carência crítica, especialmente em UTI pediátrica, e relatos frequentes de crianças que aguardam regulação por longos períodos uma situação que expõe limites da rede de média e alta complexidade.
Além disso, a rotina do sistema público é impactada por episódios de paralisação de profissionais essenciais: notícias recentes reportaram suspensão de cirurgias por falta de anestesistas em hospitais de referência, o que compromete acesso e cria filas cirúrgicas. Enquanto a ampliação de leitos e recursos é necessária, garantir condições de trabalho, remuneração e gestão humana é igualmente urgente.
Conclusão e sugestões práticas.
Integrar investimentos com gestão local. Recursos federais e obras estaduais só trarão ganhos plenos se vierem acompanhados de gestão por metas claras (redução de tempos de espera, aumento de cobertura de APS, formação/contratação de especialistas).
Expandir e proteger UTIs pediátricas e leitos críticos. A criação de leitos precisa vir com equipes treinadas e retentivas para evitar o gargalo descrito por famílias.
Fortalecer atenção primária + telemedicina. Consolidação do atendimento remoto e das equipes de saúde da família pode reduzir demanda por internações evitáveis e melhorar prevenção.
Políticas de retenção de profissionais. Ofertas de formação, incentivos regionais e melhoria das condições de trabalho ajudam a evitar greves e faltas de especialistas que interrompem serviços essenciais.
O Piauí mostra que, quando investimentos, programas de atenção básica e políticas públicas convergem, há resultados mensuráveis. Mas a tarefa que permanece é transformar esses avanços pontuais em um sistema integrado, com cobertura adequada para todas as faixas etárias e regiões especialmente as mais vulneráveis. Para isso, não bastam anúncios: é preciso planejamento, transparência nos gastos, metas claras e acompanhamento independente dos resultados. O SUS do Piauí pode melhorar e a sociedade merece ver esta promessa transformada em atendimento digno e contínuo nas suas unidades de saúde.